Sobre o olhar e a vida

Sinto falta do olhar curioso. Daquele olhar de criança, que não deixa nada passar em branco, que enxerga no arco-íris, por exemplo, um mundo cheio de cores e magia, que vê nas coisas mais simples e banai (“adultamente” falando) a mais bela das artes.

Ahhh a arte. Tão envolvente e sedutora. No meio desse turbilhão que é a vida lá está ela, quietinha no seu canto, esperando que corramos para seus braços, que nos entreguemos a ela, para que ela possa nos acalmar e explicar melhor sobre esse desafio que é viver.

Mas, afinal, o que é a vida? Não seria a mais suprema das artes? Medo, alegria, paixão, coragem, encontros, desencontros, decepções, coincidências… tudo se mistura numa só palavra: vida.

VIver não é exatamente fácil. Nós, humanos, ainda não nos acostumamos com tantas contradições. Não nos acostumamos com a idéia de que as vezes também é preciso perder. Queremos domá e torna-lá rosa com balões verdes, entretanto, nos esquecemos que viver é ser artista, e, diante dos fracassos e decepções, nos entregamos à superficialidade, à robotozação, e trocamos nossos olhares curiosos por olhares neblinados e estáticos.

E assim o viver deixa de se arte e torna-se uma cruz, um carma.

Não quero isso pra mim. Ainda sou jovem. Estou num período de transição, como dizem os mais “vividos”. Sei que é justamente nesse período que muitos olhares se perdem. E é por isso que eu aceito a cada amanhecer esse difícil, porém, sedutor desafio da arte, o desafio que é viver.

“Um futuro asfixiado pela vida científica e calculada”

Agora é assim. Tudo tem explicação física, química, biológica ou sei lá o que. Nem Deus tá escapando dessa mania do homem moderno.

Se ficamos felizes é porque houve liberação de endorfina no organismo. Quando essa endorfina está em falta o melhor a fazer é tomar um remédio e tudo se resolve.

Quer que seu filho nasça loiro, com olhos azuis e sem defeito nenhum, pelo menos físico? Pois saiba que já é possível. “Escolha a roupagem e nós vestimos pra você!”, é o que promete a ciência.

Vivemos em uma época em que praticamente tudo pode ser calculado. A mídia e a informática vêem monopolizando cada vez mais as relações humanas e isso tem gerado consequências irreversíveis, se não forem tratadas logo.

É absurda a quantidade de pessoas dependentes de um computador ou da novela das oito pra poderem  ser felizes. Há quem passe o dia só por conta de orkut, msn, twitter, entre outros.  Ou até mesmo por conta de saber as fofocas do mundo dos famosos.

Há quem troque a companhia de uma amigo ou familiar por um capítulo de novela e uma espiadinha no BBB. Isso é absurdo. Essa pessoas recebem a todo momento idéias consumistas, idéias de que não é preciso fazer mais nada, afinal, a ciência faz por você. Com tantos cálculos e tanta tecnologia não há nada que não possa ser resolvido ou explicado. Até o amor ganhou explicações físicas.

Não estou defendendo  a idéia de que todo o conhecimento de que dispomos hj é desnecessário ou prejudicial. Pelo cotrário! Se hoje temos conforto, qualidade de vida, o mundo a nosso favor, é graças  a esse conhecimento, assim como a melhoria na área da saúde é consequência dele.

O problema não está em tê-lo, mas sim na psicose humana em querer explicar tudo, explicar o inexplicável. E esse problema tem, pelo menos, duas vertentes.

Primeiro, nós sabemos que não é todo mundo que desfruta das melhorias trazidas pela ciência. É muito pequena a parcela dominadora da ciência e muito grande a aprcela dominada por ela. E  ainda tem os que não podem se dar nem ao luxo de serem domiados, pois vivem, ou melhor, sobrevivem sob condições miseráveis.

E é aí que percebemos que o aproveitamento de tanto conhecimento não é total. Percebemos que as melhorias trazidas por ele são seletivas. Funcionam à base do poder aquisitivo. Como exemplo temos o contraste social tão gritante. Temos a diferença entre o EUA e o Haiti.

A outra vertente é a artificialização do ser humano. Os homens têm se tornado mecânicos, homens-robôs. Têm se tornado cada vez mais egoístas. O objetivo humano agora é satisfazer seus desejos consumistas. Para isso tornam-se escravos do trabalho e do dinheiro. Se esquecem que existem pessoas, muitas vezes do seu lado, que precisam de ajuda, de compreensão.  Se esquecem de viver, de sentir.  Esquecem o sentido da vida.  Se transformam em zumbis.

A essência humana foi trocada por desejos consumistas. Foi trocada pelo orkut, msn e twitter, pelas vidas vividas em uma novela.

Não tô dizendo que ver novela ou ter conta em alguns desses sites é o fim do mundo. Eu mesma tenho conta em todos os que citei e adoro isso.  O que não pode é a vida virtual substituir a vida real.

A mídia tem superficializado as pessoas. É uma superficialidade industrial.  É uma cultura de massa. A TV  impõe como você deve ser, o que comer, o que vestir, como ser feliz, a doença que deve ter e até no que você deve ou não acreditar. Ela prega “Seja diferente!”, mas torna todos tão iguais.

A natureza não ganha mais atenção. Ninguém quer ir pra uma praça, por exemplo, estar em contato com com o mínimo de natureza e pensar na vida. Refletir sobre suas atitudes, sobre seus projetos. Que seja no jardim de casa ou em frente a uma planta na sacada. Mas não, o bom mesmo é refletir  sobre a vida alheia em frente a uma tela de cristal líquido.

Houve a época em que a Literatura regia a sociedade. Mas o que dá futuro atualmente não é querer entender e apaziguar a alma humana, mas  sim saber calcular. Saber é calcular é importante, entretanto, é preciso lembrar que a vida, como disse Humberto Gessinger (Engenheiros do Hawaii), “não é ciência exata, é humana demais.”

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